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Dandaras rebeladas

Brasília - Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver em Brasília, reúne mulheres de todos os estados e regiões do Brasil (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Brasília – Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver em Brasília, reúne mulheres de todos os estados e regiões do Brasil (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Por Daniela Luciana da Silva e Juliana Cézar Nunes

As mulheres negras estão prontas para escrever um novo capítulo em sua história de lutas em 2016. O afrontamento ao racismo segue em conversas nas ruas, rodas nos terreiros e quilombos, encontros nas universidades, produções nos estúdios, rimas no palco e ações nas redes sociais Continuar lendo

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A dimensão racial dos ventres livres

por Ana Luiza Flauzina*
Ventre Livre

“o reclame é também pelo enfrentamento da máxima da morte e da subordinação como o único destino dos produtos gestados pelos úteros de mulheres negras”

Foi num 28 de setembro. Em seu gabinete, conta-se que a princesa branca assinou a lei que garantiria a liberdade à prole das mulheres negras. Numa canetada, a história sedimentou a narrativa da passividade feminina branca, na imagem de Isabel como uma peça de sensibilidade no jogo politico masculino, e da subalternidade feminina negra, na projeção das mulheres escravizadas como destinatárias desta dita generosidade.
Apropriada pela resistência feminista na década de 1990, a Lei do Ventre Livre passou a ser um marco na luta pela descriminalização do aborto. O simbolismo parece oportuno para a demanda inadiável da autodeterminação dos corpos. Um reclame legítimo ecoado solidariamente por mulheres de todas as cores, classes e orientações sexuais, para que o dizer sobre suas escolhas seja exercido na primeira pessoa. Uma tentativa de se frear as perversas pautas do sexismo que tem, em nome dos discursos distorcidos da defesa à familia e à vida, gerado violações que vão dos estupros sistemáticos aos feminicídios tolerados, passando pelas esterilizações e mortes produzidas em abortos clandestinos e inseguros.

Em defesa da Lei Maria da Penha e para além dela

Ana Flávia Magalhães Pinto*

Passados sete anos desde a sua promulgação, a Lei Maria da Penha (Lei n. 1.340, de 7 de agosto de 2006) inegavelmente caiu na boca do povo. Para o gosto de muitas pessoas e o desgosto de outras tantas – sobretudo tantos −, 98% da população sabe da existência desse instrumento legal, segundo informações apresentadas pelo Instituto Patrícia Galvão e o Data Popular. De conversas entre amigas a tema de samba da Alcione, passando por inúmeros debates públicos e oficinas de sensibilização, o assunto tem ocupado corações e mentes Brasil afora. O aumento vertiginoso de 600% das denúncias registradas por meio do serviço Ligue 180 do governo federal serve como mais uma prova disso.

Alcione – Maria da Penha, CD De tudo o que eu gosto (2007) Continuar lendo

Do trágico ao épico: a Marcha das Vadias e os desafios políticos das mulheres negras

Por Ana Flávia Magalhães Pinto*

No último sábado, 22 de junho, a Marcha das Vadias ocupou ruas e espaços do centro de Brasília, com a palavra de ordem: “Se ser livre é ser vadia, então somos vadias!”. Segundo estimativas oficiais, cerca de 4 mil pessoas comparecem ao protesto. Dias antes, a ativista negra Maria Luiza Júnior havia me convidado a estar com ela naquela manifestação em que, como “Mãe de Preto”, carregaria um cartaz com a mensagem: “Brasil, troque sua polícia racista por uma política humanista. Dê um basta ao genocídio da juventude negra!”. Declinei do convite, explicando que não iria por razões pessoais e em sintonia com a decisão tomada pelo Coletivo Pretas Candangas, do qual faço parte. Continuar lendo

Exposição Cabelaço: Meu cabelo é bom, ruim é o racismo!

De 22 a 31 de julho, em Brasília, o VI Festival da Mulher Afro Latino Americana e Caribenha, Latinidades, vai apresentar a Exposição Fotográfica Colaborativa Cabelaço, composta por trinta fotos de cabelos e penteados afro.

cabelaco Continuar lendo

Luta silenciada, conquista histórica

Por Juliana Cézar Nunes*

Desde que me tornei mãe, em janeiro, passo horas contemplando meu filho e pensando como ele irá interpretar os acontecimentos de 2013 daqui a 20, 30, 40 anos… Tenho especial curiosidade em saber como Bento contará para os filhos e netos que apenas no ano do seu nascimento as trabalhadoras domésticas tiveram seus direitos reconhecidos no Brasil. Passaram a ter jornada de trabalho, piso salarial, direito a férias remuneradas, INSS, hora extra, adicional noturno… Ao todo, dezessete direitos trabalhistas negados mesmo 125 anos depois da abolição da escravatura e 25 anos após a última Constituição dita cidadã. Continuar lendo

BASTA!

Por Paula Balduino de Melo*

Eram mais ou menos 7h30, Praia do Morro, Tumaco, Colômbia. Isso foi ontem. Eu estava trotando, fazendo meus exercícios matinais. A única coisa que faço sozinha na minha rotina aqui. Passei o limite recomendado por minhas companheiras mulheres que outras vezes me acompanharam nesse afã matinal: adentrei uma sessão da praia pela qual ninguém passava e que estava alijada dos olhos de qualquer pessoa que (não) estava na praia nesse dia cinzento. Segui trotando em uma pequena faixa de areia entre o mar e uma mata rasa e baixa Continuar lendo