BASTA!

Por Paula Balduino de Melo*

Eram mais ou menos 7h30, Praia do Morro, Tumaco, Colômbia. Isso foi ontem. Eu estava trotando, fazendo meus exercícios matinais. A única coisa que faço sozinha na minha rotina aqui. Passei o limite recomendado por minhas companheiras mulheres que outras vezes me acompanharam nesse afã matinal: adentrei uma sessão da praia pela qual ninguém passava e que estava alijada dos olhos de qualquer pessoa que (não) estava na praia nesse dia cinzento. Segui trotando em uma pequena faixa de areia entre o mar e uma mata rasa e baixa.

Escutei um barulho vindo da mata e, em seguida, vi um homem jovem (se tinha 18 anos era muito) pulando por cima do verde e aterrissando na areia. Ao se acercar de mim, que segui trotando no mesmo ritmo, ele perguntou se podia me fazer uma pergunta. Quase simultaneamente meteu a mão na minha bunda. Eu saquei a mão dele do meu corpo e disse: “passa”. Ele novamente meteu a mão na minha bunda e avançou alguns passos na minha dianteira. Agarrou meu braço e me puxou pra frente, mas não me desequilibrei. Eu fiquei com muita raiva e, com uma expressão de fúria, gritei novamente: “passa, passa”, ameaçando golpeá-lo com a outra mão e desvencilhando meu braço. Pude perceber a expressão de surpresa no rosto do rapaz e saí correndo bem rápido, chegando a uma parte que tinham dois homens. Éramos os únicos seres na praia, nesse momento. Daí eu me meti no mar e em seguida fui pegar o ônibus pra voltar pra casa. Pedi a esses dois caras pra me acompanharem, pois esse mesmo jovem vestiu a camisa e foi pro mesmo ponto da praia onde eu estava, quando me banhei.

Eu saí dali pensando como essa situação é absurda! Acho que perdi alguma parte da história: em que lugar estava dito que esse cara podia tocar meu corpo? Em que parte estava escrito que eu estava à disposição dele, que poderia me tomar à força? Afortunadamente eu pude reagir. Forças ancestrais femininas se fizeram intensamente presentes demonstrando que, assim como meu coração, minha vulva é de ouro, tesouros que ninguém pode tomar. E entrei no mar pra agradecer minha mãe. Sempre soube que as águas mais calmadas podem se por em tormenta e avançar duramente quando necessário. E afortunadamente, devo reconhecer que o rapaz foi suave, tendo em vista os códigos da violência masculina.

Nas outras práticas matinais ao longo dessa temporada já tava sacando os riscos que eu estava correndo. E já vinha me questionando sobre meu direito de ir e vir, como qualquer pessoa, numa sociedade que se supõe democrática (o que não é exatamente o caso da Colômbia, mas esse é assunto pra outro momento). Fui testando, até chegar nesse ponto. O machismo me coloca em uma sinuca de bico: não posso mais trotar sozinha pela praia de manhã cedinho, pois arrisco minha vida. Isso me gera uma revolta que não cabe dentro de mim.

A gente acaba de fechar a semana mundial de combate à violência conta a mulher e isso aconteceu comigo ontem, como deve acontecer com inúmeras mulheres aqui, no Brasil e no mundo. Eu mesma já não posso contar quantas vezes fui violentada por homens, seja física, seja verbalmente; em ambos os casos deixando na minha conta danos psicológicos. E isso pode passar andando na praia, na rua, ou dentro da minha própria casa.

Na região do caribe colombiano, é comum os homens dizerem a suas “companheiras”: “deme mi bandeja, deme lo mío”. Fazem isso quando querem transar. Pessoal, precisamos transformar esses códigos. Vejam bem: aqui, como na tentativa de estupro que sofri ontem, homens são animais. O jeito que eu falei com o rapaz ontem foi igualzinho eu falaria com um cachorro bravo e inconveniente. Os desejos masculinos estão referenciados unicamente em uma dimensão fisio-gastronômica. E nós, mulheres, ficamos fodidas, literal e psicologicamente falando. Não tá nem no horizonte o prazer feminino. Nem a possibilidade de escolha. Autonomia aí passa a quilômetros de distância. Não dá mais, jogo a toalha. Pra mim BASTA de violência contra as mulheres!

*Doutoranda em Antropologia pela Universidade de Brasília (UnB), está na Colômbia há dois meses realizando pesquisa de campo do doutorado. Integrante do Pretas Candangas – Coletivo de Mulheres Negras do DF.

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Uma resposta para “BASTA!

  1. Realmente por mai que estejamos a trabalho, estudo ou até morando totdo o cuiddo é pouco. Pois o direito de ir e vir nesta sociedade violenta, infelizmente não nos deixa muitas escolhas. Ao ler este texto, lembro-me de ocasiões que denunciavam estas possibilidades de acontecimentos, “encontros”. Que as deusas e deuses nos guardem, sempre!

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