Vamos falar de bastidores?!

O Festival Latinidades 2014: Griôs da Diáspora Negra deixou um legado afetivo e político que vai além de 2014. Nos trouxe tantos encontros, emoções,reflexões …

Nessa série de pequenos escritos, as Pretas Candangas vêm somar aos corres da Blogueiras Negras e de outras pretas em movimento para trazer à luz parte desse legado, conforme nossa vivência e visão.

Vamos falar de bastidores?!

O Latinidades Afrolatinas 2014 trouxe uma mulherada muito especial em sua programação. Shirley Campbell Barr, Nina Silva, Vera Lopes, Ana Maria Gonçalves, Paulina Chiziane, Inés Morales, Marlene Tello e por aí vai. E a plateia também estava repleta de mulheres incríveis, negras de luta, que deram importantes contribuições ao longo do Festival.

Uma dessas grandes mulheres, Eliete Paraguaçu, alçou sua voz quando conversávamos com Dona Roxita (Iraldiva Miranda Dantas) sobre a importância do território para as nossas práticas de saúde, na mesa ‘Griôs da Saúde Integral’. Eliete falou sobre o território de Ilha de Maré, localizado na Baía de Todos-os-Santos, região metropolitana de Salvador, Bahia.

Mulher negra, pescadora e quilombola, ela estava no Festival divulgando e buscando apoio para a Campanha Nacional pela Regularização do Território das Comunidades Tradicionais Pesqueiras. Eliete denunciou a atuação de multinacionais, especificamente a Royal Vopak, que explora petróleo, óleos e outros produtos químicos em seu território. A empresa está acabando com a vida da Ilha de Maré; de seu povo, de seus peixes, suas águas e sua terra. Falou sobre o aumento do índice de câncer entre a população da Ilha de Maré nos últimos anos, em decorrência da atividade predatória dessas empresas.

Ilha de Maré

Foto: Site CESE

Enquanto falava, emocionada, as lágrimas de Eliete se irmanaram com as de Mirt’s Sants, outra jovem mulher negra e quilombola, de Sapê do Norte, região nordeste do Espírito Santo, municípios de Conceição da Barra e São Mateus. Mirt’s se lembrou de seu povo que também sofre com a ação de empresas de eucalipto, especificamente a Aracruz Celulose S/A. Território de resistência, que durante a escravização do povo negro no Brasil abrigou libertos e fugidos, esse antigo reduto de Mata Atlântica foi devorado pela plantação de eucaliptos, desde fins da década de 60.

As consequências são desastrosas:empobrecimento do solo, esgotamento das águas (lençóis freáticos, córregos e rios), morte, cegueira e vários problemas de saúde, dada a exposição do povo quilombola ao agrotóxico. Camponeses e pescadores negros ficaram reféns do grande capital, dentro de seu próprio território, e hoje são levados a exercer a exploração de carvão, como uma das únicas opções de sobrevivência. O caso do Sapê do Norte se contextualiza na histórica luta das comunidadesnegras quilombolas pelo reconhecimento e regularização dos territórios ancestrais.

A gravidade dessas situações é alarmante! Mostra o longo caminho que precisamos percorrer buscando a garantia da saúde, do território e da integridade do povo negro no Brasil. E nós, Pretas Candangas, parabenizamos o Latinidades por criar um cenário de encontros tão importantes, como esse entre Eliete Paraguaçu e Mirt`s Sants, passos de fortalecimento nesse longo caminho.

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