Posicionamento do Coletivo Pretas Candangas acerca dos últimos debates sobre feminismo e racismo

Saudações a quem é pela liberdade!

Primeiramente, gostaríamos de lembrar que nós, mulheres negras, somos diversas, e não abrimos mão dessa realidade e desse direito. Qualquer construção discursiva que tente nos constranger a partir da negação desse dado será exaustivamente criticada e combatida.

Diante da complexa rede de significados que dão sentido à presença dos nossos corpos neste mundo, nós compartilhamos e legitimamos a luta contra o machismo, o sexismo, a misoginia e o patriarcado. Ao mesmo tempo, inseridas numa sociedade fundada na escravidão de africanas, africanos e suas/seus descendentes, somos obrigadas a nos manter cotidianamente resistentes ao racismo, bem como à pauperização, à gentrificação, ao desrespeito geracional, à homofobia, à lesbofobia, à transfobia, e a qualquer forma de inferiorização de grupos humanos.

Para nós, as limitações geradas e alimentadas pelo racismo não seriam resolvidas no prazo de uma semana ou por meio da escrita de uma nota pública, como a Nota Pública sobre Expulsões na Marcha das Vadias-DF 2013. Entendemos o racismo como questão social estruturante, profundamente introjetada na sociedade brasileira e em outras sociedades americanas há cinco séculos, o que exige reflexões constantes para que não seja reproduzido, por todxs nós. Certa vez foi lançada no Brasil a campanha: “Onde você guarda o seu racismo?” Responder a esta pergunta é fundamental para não reproduzir tal prática.

Há séculos, temos sido protagonistas das lutas contra a opressão racial e outras formas de opressão que teimam em nos subjugar e tentar nos destruir. Esperamos que, com o tempo, o antirracismo deixe de ser palavreado fácil e se torne uma prática cotidiana e de franca compreensão para todas e todos.

Ainda que não sejamos as responsáveis pelas aludidas ações recriminatórias, nem mesmo tenhamos identificado tal procedimento em nível coletivo, consideramos, no mínimo, uma falta de respeito político chamar de atitude “antifeminista” os questionamentos feitos sobre a organização da Marcha das Vadias em sua dificuldade de lidar com as especificidades das mulheres negras, entre outras.

Como um coletivo de mulheres negras, entendemos que essa acusação vaga nos distancia, num momento em que deveríamos nos aproximar no sonho da construção de uma sociedade mais justa, livre de racismo e machismo. As críticas são importantes para o crescimento e não para aprofundar o distanciamento. Os silêncios representam um problema, na medida em que tiram do debate público a reflexão e a autocrítica,  tão importantes e que devemos fazer diariamente nas nossas lutas.

Por fim, convidamos todas e todos a conhecer as lutas das mulheres negras por respeito e dignidade não só aqui, mas em outras partes deste planeta. Nossos passos vêm de longe, e vocês verão que, ao tempo em que lutamos também pela vida dos homens negros, temos combatido bravamente a opressão sexual e de gênero nos chamados espaços negros, pois partimos do princípio da defesa da Humanidade.

Pretas Candangas,
Distrito Federal, 4 de julho de 2013

Aproveitamos a oportunidade para compartilhar o texto Vivendo de Amor, escrito por Bell Hooks, uma ativista negra nascida no Estados Unidos.
http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/180-artigos-de-genero/4799-vivendo-de-amor

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5 Respostas para “Posicionamento do Coletivo Pretas Candangas acerca dos últimos debates sobre feminismo e racismo

  1. Janaína Damaceno

    Vou guardar este post junto com aquela “nota” para as minhas próximas aulas. Nela fica evidente a tentativa de desqualificação, desprezo e anulação do outro a todo o custo, bem como a retórica engana trouxas de quem deseja dar a última palavra sempre. Mais um parágrafo e “elas” estariam exigindo a redução da maioridade penal. Lamentável, mas não é nenhuma novidade. Parabéns pretas candangas!

  2. “Primeiramente, gostaríamos de lembrar que nós, mulheres negras, somos diversas, e não abrimos mão dessa realidade e desse direito…”

    Infinitamente genial e fundamental abrir a nota com essa assertiva…, fora a nota como um todo.

    Obrigada e parabéns! =]

  3. Em 2011, as afro americanas fizeram uma carta aberta nos convidando a uma reflexão sobre a Marcha das Vadias e a nossa participação enquanto mulheres negras: “An Open Letter from Black Women to SlutWalk Organizers” http://www.huffingtonpost.com/susan-brison/slutwalk-black-women_b_980215.html
    Que Essa reflexões, que o posicionamento trazido pelas Pretas Candangas sejam ecoados de forma transformadora. Parabéns!

  4. Eu sempre achei a Marcha das Vadias um espaço bonito e, de certa forma, amoroso, que inclui na pauta política questões importantes no campo do corpo, do afeto, da autonomia e da posição das mulheres na sociedade. O vídeo e a reflexão das Pretas Candangas puxou o meu tapete. Perdi o equilíbrio e isso é bom para qualificar minha reflexão.
    Obrigada!

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